Bertrand Russell, matemático, filósofo, que viveu 98 anos, foi um pensador inquieto e produtivo. É dele, o seguinte pensamento:
O homem feliz é aquele que vive objetivamente, aquele que é livre em seus afetos e conta com amplos interesses, aquele que assegura para si a felicidade por meio desses interesses e afetos, os quais, por sua vez, o convertem em objeto do interesse e do afeto de muitos outros.
Uma frase simples que, ao menos pra mim, parece sugerir que existe, na opinião de Russell, a possibilidade de alguém ser feliz… trabalhando. Ora essa, como assim? Se o trabalho tira de nós o tempo em que poderíamos estar fazendo outras coisas inquestionavelmente mais prazerosas ( estar em companhia das pessoas que gostamos, por exemplo ) e que são fontes universais de felicidade, será que é possível ser feliz trabalhando? Esta é uma boa pergunta, tema para uma conversa interessante e penso que este tipo de pergunta está entre aquelas que os filósofos gostam de atirar sobre a humanidade quando as coisas “parecem” que estão bem…
Mas o que você acha (publique sua resposta no espaço dos comentários, logo abaixo)? Dá para combinar felicidade com trabalho? Ou, de forma mais direta, seu trabalho pode ser fonte de felicidade?
Da minha parte, encontro evidências: conheço um bom número de pessoas que são absolutamente felizes com o seu trabalho, em diferentes posições: secretarias, recepcionistas, diretores, gerentes… Indiscutivelmente, são pessoas felizes. Como? Como alguém consegue “extrair” felicidade do seu trabalho, num tempo em que os empregos valorizam os “números” deixando de lado outros valores humanos mais sutis?
Creio que posso encontrar uma explicação. Nesta frase de Russell, encontro três sugestões: 1) “o homem feliz é aquele que vive objetivamente”; 2) “aquele que é livre em seus afetos e conta com amplos interesses”, e; 3) “seus interesses o convertem em objeto de interesse de muitos outros”. Pois bem, ele aponta para uma trilha.
A trilha
Para começar, Russell sugere que ser “objetivo” traz a “felicidade”. Ser “objetivo” quer dizer “ser essencialmente prático”, ser capaz de realizar algo com um propósito. Recentemente, li o livro “Aprendendo Felicidade”, de Mark Kingwell e nele encontrei esta frase :
“Sugerir que a felicidade é ativista, que ela não é a aceitação passiva das coisas, é implicitamente louvar o valor do trabalho”.
É quando estamos totalmente ocupados que encontramos uma forma especialmente significativa de felicidade humana: a capacidade de realizar e as alegrias que surgem da contemplação do que fomos capazes de criar ou fazer. Além disso, o trabalho foi elevado a uma categoria superior porque oferece um caminho aparente para atravessar os tempos caóticos em direção a um futuro de que nada sabemos.
Já de outro autor de quem gosto muito, Joseph Campbell (já escrevi sobre Campbell aqui) quero me servir do seguinte trecho, do seu livro “Poder do mito”:
“Quando você está na busca da sua bem-aventurança, você caminha numa espécie de trilha que esteve aí o tempo todo, à sua espera, e a vida que você tem de viver é essa mesma que você está vivendo agora. Quando consegue ver isso, você começa a encontrar pessoas que estão no campo da sua bem-aventurança e são elas que abrem as portas para você.”
Com estes dois pensamentos, consigo encontrar explicação para a primeira parte da frase de Russell: viver objetivamente – e viver feliz -, para mim, é “dar forma e contorno” a um futuro que quer escapar ao meu controle, agindo, no presente, pela trilha que o meu trabalho – a carreira que tenho – me oferece. E vou encontrar ajuda nas pessoas que me cercam – ora, não é este o valor principal do “networking”?
Interesses
Quando Russell fala sobre os amplos interesses de um homem feliz, creio que ele valoriza a curiosidade por temas distintos e variados. Um texto sobre as boas conseqüências desta “curiosidade” pode ser encontrado em Frans Johansson, no seu livro “O Efeito Médici”, onde ele afirma que quando nos debruçamos sobre a história da ciência poderemos constatar que muitas descobertas foram efetuadas por pessoas não pertencentes à área em questão. Químicos que intervêem na biologia e na medicina, médicos na física, geólogos na evolução e autodidatas em todas. Comentei sobre essa sugestão neste post aqui. Frans, então, propõe que:
“A intersecção dos diferentes setores do conhecimento cria novas áreas capazes de atrair mentes abertas, as quais dão impulso à inovação, ao criar um grande número de ideias novas e extraordinárias”.
E vou lembrar, de novo, de Mark Kingwell. Leia outro trecho do seu livro “Aprendendo Felicidade”:
“O raio de ação de um homem deve exceder o limite do seu alcance, não porque não faz sentido agir de outra forma, mas porque não podemos saber até onde podemos nos elevar acima de nós mesmos, a menos que acreditemos, pelo menos de vez em quando, que qualquer coisa é possível”.
A segunda parte da frase de Russell agora está explicada: viver feliz, para mim, é, também, “interessar-me por um número variado e distinto de novos conhecimentos. Com essa curiosidade quase infantil, posso multiplicar as possibilidades de elevar as minhas capacidades”. É como, portanto, se estivesse olhando, sempre, por “cima dos muros” perguntando “isso é tudo o que eu posso aprender ?”
De acordo?
Liderança
Por fim, Bertrand Russell sugere que “o homem feliz é aquele que seus interesses o convertem em objeto de interesse de muitos outros”. Vejo aqui um convite explícito para a liderança, ou seja:
Viver objetivamente – e viver feliz -, para mim, é “dar forma e contorno” a um futuro que quer escapar ao meu controle, agindo no presente pela trilha que o meu trabalho – a carreira que tenho – me oferece. Agindo desta forma vou inspirar outras pessoas a seguirem por caminhos mais seguros nestes tempos de incertezas.
Assista este vídeo aqui para ver um bom exemplo de um líder trabalhando e sou capaz de apostar que ele estava muito feliz com o que estava fazendo – sua apresentação é uma revelação da paixão que tem pelo que faz. O protagonista deste vídeo é um maestro e pianista, mundialmente famoso, chamado Benjamin Zandler. Mas não espere encontrar um exemplo de liderança tradicional, daquela do tipo “comando e controle”: veja como ele consegue “capturar” a atenção de toda a platéia (inclusive a sua).
Relevância
Muito bem, diante disso tudo, acredito que é possível, sim, ser feliz trabalhando e a palavra-chave, na minha opinião, que abraça em seu significado as três explicações que sugeri acima é “relevância”. Preciso tornar-me relevante e somente conseguirei atingir esta condição se eu me propor a fazer muito bem feito aquilo que me proponho a fazer - o meu trabalho.
Não tenho nada a perder com isso. Vou encontrar em um livro de Zygmunt Bauman (A arte da vida, Editora Jorge Zahar – comentei sobre este livro neste post aqui) a pergunta final: “o que nos impede de tentar com mais vigor?”. Logo:
Ao agir com vigor para o propósito de tornar-me relevante – vivendo objetivamente, com amplos interesses – acredito que poderei (e você também poderá fazer o mesmo) encontrar uma forte razão, entre tantas outras, de ser feliz com o meu trabalho.
E ainda vou ter tempo para rir com este deboche do Dilbert:

